Artigo: TV 3.0 e o futuro da televisão universitária no Brasil

A TV 3.0 representa um dos mais importantes avanços tecnológicos da história da televisão brasileira desde sua implantação, em 1950. Trata-se de uma inovação bem-vinda e necessária, que responde às transformações sociais e se adequa ao modo como a sociedade produz, distribui e consome conteúdos audiovisuais. O modelo brasileiro, ao integrar broadcast e broadband, posiciona novamente o aparelho de TV como ponto central de consumo de entretenimento e informação em nossos domicílios e coloca o Brasil como referência internacional de padrão de televisão híbrida.

Contudo, essa nova tecnologia, com todas as suas inovações de qualidade de som e imagem, acessibilidade, serviços e novos negócios, traz uma preocupação para as emissoras universitárias e aponta para um futuro bastante incerto quanto à viabilidade e continuidade dessa modalidade de televisão no país. Essas incertezas começam exatamente pela característica mais inovadora do novo modelo: a integração com a internet.

Para que uma emissora possa entrar, de fato, na nova era, é necessária a utilização de uma infraestrutura de rede chamada CDN. A Content Delivery Network (CDN) é um serviço contratado que permite aos usuários receber conteúdo ao vivo ou sob demanda de forma contínua e com pouca latência. No contexto do vídeo sob demanda, a CDN opera por meio da replicação de conteúdos previamente produzidos em múltiplos servidores distribuídos geograficamente. Quando o usuário solicita um vídeo, o sistema identifica o servidor mais próximo ou menos congestionado, entregando o conteúdo em pequenos segmentos adaptáveis à qualidade da conexão.

Nas transmissões ao vivo, a lógica da CDN é distinta e mais complexa. O conteúdo não está armazenado, mas é gerado continuamente. A emissora envia um único fluxo de vídeo a um servidor de origem, que o segmenta e o redistribui, em tempo quase real, para os diversos nós da CDN. Diferentemente de equipamentos tradicionais de radiodifusão, a CDN não representa um investimento pontual, mas um custo operacional recorrente, diretamente proporcional ao volume de dados distribuídos, à qualidade do conteúdo e ao número de acessos simultâneos.

O ponto central é calcular o pico de audiência da emissora. Para emissoras comerciais, esse custo é absorvido por modelos de monetização baseados em publicidade, assinaturas ou exploração de dados. No caso da comunicação universitária, cujo objetivo central é garantir acesso universal e pluralidade, a ausência de modelos de financiamento compatíveis transforma a CDN em um grande desafio.

Outro ponto significativo é a própria migração. Os altos custos de migração da TV 2.5 para a TV 3.0 — incluindo transmissores, sistemas irradiantes etc. — impõem desafios significativos para as universidades ou mantenedoras dos canais que, na maioria dos casos, assumem os custos de compra e manutenção dos equipamentos com recursos próprios.

E a situação não melhora: mudanças regulatórias no streaming

Ao desafio tecnológico-financeiro soma-se um obstáculo regulatório recente. Propostas legislativas em tramitação no Senado Federal, oriundas da regulamentação dos serviços de streaming audiovisual, avançam no sentido de retirar as emissoras universitárias da oferta obrigatória nas plataformas digitais. Essa exclusão reduz a previsibilidade de presença e alcance dessas emissoras no ambiente online, justamente quando a TV 3.0 desloca parte significativa da experiência televisiva para a internet.

O resultado é uma dupla penalização: maior custo para distribuir conteúdo e menor garantia de acesso às plataformas de distribuição para as emissoras universitárias.

Dois modos de transmissão simultânea

Observando todas essas dificuldades para emissoras públicas ou privadas, está prevista, por tempo indeterminado, a transmissão simultânea dos sistemas de TV 2.5 e de TV 3.0. Isso pode parecer um fôlego para a adaptação, mas, na verdade, pode significar o fim de uma emissora simplesmente por falta de audiência.

No início da migração, como em todo processo, é muito provável que os custos de receptores de TV aptos à TV 3.0 ou de kits de recepção para os aparelhos atuais tenham valor elevado para muitos brasileiros. Com isso, a transmissão simultânea é plenamente compreensível. Porém, com o passar do tempo, é certo que os custos irão diminuir, fazendo com que cada vez mais espectadores passem a usufruir apenas da TV 3.0.

O que restará para uma emissora incapaz de arcar com os custos da migração? A obsolescência. Essa é uma preocupação dos radiodifusores, que já solicitaram ao governo linhas de crédito e isenção de impostos para a compra de novos equipamentos, assim como ocorreu na migração do analógico para o sistema digital. Contudo, as universidades não têm acesso a essa política.

A TV 3.0 representa uma oportunidade histórica de modernização da televisão brasileira, mas sua efetivação depende do reconhecimento da infraestrutura digital como parte integrante do sistema público de comunicação. Para as emissoras universitárias, a superação dos desafios apresentados exige o reconhecimento da comunicação pública como campo plural e a adoção de políticas públicas que garantam acesso equitativo às tecnologias de distribuição digital.

Sem esse reconhecimento, a TV 3.0 corre o risco de aprofundar desigualdades e comprometer a diversidade e a legitimidade democrática do ecossistema audiovisual brasileiro. O que poderia ser um novo espaço para as emissoras universitárias pode, na verdade, representar o meio pelo qual a TV universitária deixe de existir no Brasil, exatamente quando a sociedade brasileira necessita de instrumentos e vozes capazes de combater a desinformação, os vazios de notícias e a comunicação hegemônica.

É imprescindível que o avanço tecnológico venha acompanhado de políticas públicas capazes de reconhecer as especificidades das emissoras universitárias, garantindo:

  • modelos sustentáveis de financiamento;

  • acesso à infraestrutura digital (CDN ou soluções compartilhadas);

  • reconhecimento institucional no ecossistema da TV 3.0;

  • preservação do modelo de radiodifusão pública, educativa e universitária.

Sem esse olhar sistêmico, a TV 3.0 corre o risco de se consolidar como uma inovação tecnológica bem-sucedida, mas socialmente excludente. O futuro da televisão brasileira depende não apenas da tecnologia adotada, mas das escolhas políticas que definirão quem poderá, de fato, fazer parte dela.

Por Francisco Machado Filho

Presidente da Associação Brasileira de Televisão Universitária (ABTU)

 

 

 

 

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